Terça-feira, Janeiro 31, 2006

Caninos brancos

O pêlo não era macio, era áspero, duro, quase machucava. Mesmo assim eu o sentia, não com os dedos, mas com a pele da barriga e parte do braço. Meus olhos não se mexiam. O lobo tirou a cabeça de dentro da minha barriga e pude ver sua cara manchada de sangue. Ele não se demorou olhando para mim e voltou a morder fundo. Outros lobos vieram e morderam braços, pernas, pescoço, onde dava. Eu não me importava mais. Estava flutuando pelo céu da floresta. Lá embaixo, meu corpo tinha matado a fome dos lobos. Olhei a lua e comecei a tomar velocidade, mas algo me brecou. Parecia que a linha tinha chegado ao fim e o pescador puxava o anzol de volta. Cai pesado. Senti os bafos dos lobos, um gosto quente de comedor de carne. Pensei ter dado um berro e tudo escureceu.

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Minima Amatoria II (depois de um blues de John Lee Hooker)

O meu telefone não parava de tocar quando você estava por perto. De dia, de noite, de madrugada, aos sábados, nas segundas, no outono. Hoje ele só toca para o entregador de pizza avisar que o interfone está quebrado.

Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

Chá da vingança

E aí, bateu?
Não.
E aí?
Nada.
Dez minutos depois:
E aí, bateu?
Nem.
E aí?
Necas.
Neres de pitibiriba.
Passada meia hora, Cesinha grita “bateu” e se tranca no banheiro.
Os amigos tentam arrombar a porta para ver se ele está vivo, mas desistem quando seus intestinos resolvem mostrar para que servem.
Cada um correu para se aliviar onde pode.
No dia seguinte, a vingança: esfolar Romeu que escolhera a espécie errada de lírio na hora de preparar o chá.

Quarta-feira, Janeiro 25, 2006

Um poeta entre travessões

No crepúsculo em que decidiu ser poeta trágico, Diógenes Urrutia achou que precisava de uma certa pompa e circunstância: fechou todas as portas e janelas, cerrou as cortinas, acendeu incensos pela casa, desligou a TV, o rádio, tirou o microondas da tomada e subiu para a mansarda, de cuja janela podia ver a rua, os garotos de frete, árvores, sacos de lixo, postes e pombos.
Depois de observar a vida, pegou o candelabro – de ferro batido, pesado, recoberto por várias camadas de parafina derretida ao longo de meses – e foi se sentar à escrivaninha.
Olhou o crânio – roubado ainda no tempo da escola – encimado por uma vela de cera de abelha derretida pela metade, molhou a pena no tinteiro e cometeu seu primeiro verso.
O som da pena riscando a folha – uma resma de papel artesanal escolhido a dedo – parecia uma navalha escanhoando alguém.
Perdeu-se naqueles versos – porque ele era labirinto – e, antes que se desse conta, estava de volta à janela.
Para que poesia no papel, pensou, se ela podia ser vista dali? – do mesmo lugar de onde ele deveria acenar para os poemas partindo.
Afinal, ele lera alhures – e naquilo acreditara – que pensar era estar doente dos olhos.

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Coruja na cabeça

Sete noites seguidas, Jaime teve o mesmo sonho: batiam à porta, ele ia abrir e uma coruja, não um daqueles grandes mochos europeus, mas seu primo brasileiro, um caburé, pequeno e singelo, invadia o apartamento, pousando sobre a TV (recém mudado, ele ainda não conseguira tirar o busto de Atena da caixa). Nessa hora, Jaime acordava.
A oitava noite, ele passou em claro, intrigado, bestificado, temeroso e de olho arregalado por culpa daquele emissário de lorde Morfeu. Só foi dormir dia claro.
Na nona noite, o caburé não voltou – sim, ele ficara tão ensimesmado que pesquisara a respeito. Na décima noite, também não.
Nem em nenhuma outra noite.
Se a coruja tinha algo para lhe dizer, Jaime ficaria sem saber. Estranhamente, ele nunca mais lembrou de um sonho sequer, mas o caburé nunca mais saiu de sua cabeça.

Terça-feira, Janeiro 17, 2006

Viajandão: capas do Yes vão virar animação

Você conseguiria imaginar que muitas capas de álbuns do grupo de rock progressivo Yes contam uma única história? Pois é. Um dos ilustradores mais famosos destes discos, o artista plástico Roger Dean, resolveu mostrar o mundo que se esconde por trás de seus desenhos - e está produzindo, de maneira absolutamente independente, a animação Floating Islands.

Trabalhando há cerca de 33 anos em parceria com os roqueiros do Yes, Dean conta, em seu site oficial (http://www.rogerdean.com/), que muitos fãs percebiam algo de similar nas capas e sempre perguntavam a respeito. "Alguns tiravam suas próprias conclusões e outros especulavam sobre cada elemento. Outros chegaram até a criar suas próprias histórias. Mas, até agora, Roger tinha ficado em silêncio. No entanto, ele confirmou que aquilo é um novo mundo e existe uma história completa - sobre a qual deu apenas algumas pistas", afirma o site.

Garfado n'Arca - Saiba Mais
Nefelibata

Cansado de rolar no lençol grudento, Hermes levantou e foi tomar banho. Era uma madrugada quente, daquelas de empapar o travesseiro. Deixou a água, ainda morna nos canos, cair no lombo. Quando enfim esfriou, ele se sentiu melhor. Foi só na hora de enxugar as pernas que ele notou pequenas asas na altura dos calcanhares. Puxou a asa da perna direita para ver se algum amigo lhe havia pregado uma peça. A dor provou que não. Sem saber o que fazer, saiu voando e não voltou mais. O que mais o intrigava desde então não eram as asas, mas, sim, o fato de asas tão pequenas serem capazes de levar pelos céus alguém do seu tamanho. Hermes, contudo, cansou de se questionar. Ele sabia que cair de uma nuvem podia doer tanto quanto desabar do quinto andar.
crônicas onzenas

às vezes, o visitante pergunta o que é o onze.
e eu digo que o onze - o longa-metragem que deu origem a este simulacro - foi um barco sem leme, uma nau sem capitão, um reino sem rei nem roque.
há quem diga que quem se lembra do onze, na verdade não o viveu.
provérbios (mal)feitos à parte, o onze (esse quase esquecido) foi uma quase confraria formada por gente que se perdeu por aí.
e realmente me espanto que esta freguesia continue dando pitacos & coisas do gênero.
tempus fugit

dia 13, esta jangada completou quatro anos à deriva no mar cibernético.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

Os verdes porcos de Taiwan

Essa notícia parece coisa de palmeirense:

Cientistas da Universidade Nacional de Taiwan afirmaram nesta quinta-feira ter criado três porcos transgênicos verdes que brilham no escuro, a partir da mistura do material genético deles com o de águas-vivas.
Até então, outros cientistas já tinham conseguido criar porcos que eram parcialmente fosforescentes, mas os cientistas de Taiwan afirmam que os deles são excepcionais."Os nossos são os únicos no mundo verdes de dentro para fora.
Até o coração e os órgãos internos deles são verdes", afirmou Wu Shinn-Chih, do Instituto e Departamento de Ciência e Tecnologia Animal.
Os cientistas dizem ter injetado o DNA de águas-vivas em cerca de 250 embriões de porcos, que foram implantados em oito porcas. Quatro delas emprenharam.

Quarta-feira, Janeiro 04, 2006

Para começar o ano, a íntegra da coluna de Clóvis Rossi publicada na Folha de S.Paulo (31/12/2005)

"Nada como o espírito festivo de Natal/Ano Novo. Até esses ranzinzas que fazem a Folha revelaram toda a caridade do mundo ao preparar o título principal da capa de ontem: "Congresso sai de férias sem votar Orçamento".
O Congresso sai de férias? Como, se não trabalhou nadica de nada nos 12 meses anteriores, única maneira de cidadãos normais e decentes adquirirem o direito de gozar férias? A própria Folha, aliás, dias atrás, já havia feito um levantamento sobre as atividades do Congresso que provou, com números insofismáveis, que esse pessoal não fez nada o ano inteiro.
O título correto, portanto, não fosse o espírito festivo e caridoso, seria "Congresso continua de férias e não vota o Orçamento".
Já tive meus momentos de defender a chamada classe política. Uma e outra vez, neste mesmo espaço, escrevi que o preconceito contra políticos é primo-irmão do preconceito contra judeus, árabes, negros, nordestinos, homossexuais etc.
Hoje em dia, continuo me irritando com o preconceito contra quem quer que seja, mas entendo e até justifico o preconceito contra políticos. Sei que o bordão usual ("são todos ladrões") é injusto com uma meia dúzia de gente decente que faz da política a sua profissão e a sua vocação.
Mas são tão poucos os que se salvam nesse meio que é cada vez mais difícil defendê-los. Até porque os que se salvam acabam, não obstante, coonestando pelo silêncio as práticas de seus pares mais nefandos.
Quando viajei pela primeira vez a Washington, faz mais de 30 anos, o guia do Departamento de Estado mostrou o Capitólio, a sede do Congresso, e disse que não podia haver nenhuma edificação que ficasse acima daquela cúpula, para representar a absoluta proeminência da casa dos representantes do povo.
Achei bacana. Mas, se se aplicasse tal critério ao Brasil, aquelas cúpulas emborcadas de Niemeyer deveriam ficar sob a terra seca de Brasília, bem enterradas."